Ontem foi primeiro de abril, aquele dia que tudo que alguém te fala você já desconfia de ser mentira.
E foi nesse clima que estive ontem no "II Festival da Mentira do Sertão Central". A vivência aconteceu em Boa Água, distrito de Cipó dos Anjos, no terreiro do mestre Chico Emília. A primeira mentira do dia quem contou foi o Tempo: que só faltava dizer que ia chover, pegamos o ônibus à tardinha, por volta de 17:20, e estávamos diante de uma nuvem ameaçadora de chuva, apesar de não ser um profeta da chuva, ela era um grande indicador de que iria chover, e muito! Continuamos viagem com receio da chuva atrapalhar o festival da mentira, porém, felizmente e por incrível que pareça, no terreiro, quando chegamos, não caiu nada além de um sereno fino.
Quando chegamos, reconheci de primeira o Mestre da cultura Chico Emília, dono do lugar, o seu filho, Joel do Repente e Pádua de Queiroz, meu conterrâneo, e pode-se dizer também meu Xará, visto que temos o nome de Antônio, talvez porque, assim como eu, nasceu com o cordão umbilical laçado no pescoço, durante a gestação da mãe (superstição dos antigos).
Depois de posicionadas as cadeiras no terreiro, para o lado do alpendre da casa paralela a de Chico, não demorou muito pra Mestre Pádua começou a cantar, animando a noite.
“hoje é dia da mentira, então hoje vou ser cantor”
Depois Xodó do Nordeste, começou a agitar a galera, cheio de gaiatices.
Em seguida, entra Ery Soares e foi um momento muito especial por tocar no local de memória afetiva, nutro profundo carinho pelo “Nas Garras da Patrulha” e o humorista faz inúmeras vozes do programa, sendo a do Tizil uma das principais.
Lembro com muito carinho dos personagens do programa, como o Tabosa, o bêbado que quando entrava em cena, tocava aquele jingle “quer frescar fresque, mas não fique frescando não.”
Além dele, Tizil, também possui um lugar especial em minha memória, o personagem “pirangueiro” azarado que sempre se dá mal após suas malandragens.
Foi um momento de celebrar e refletir sobre como nós Cearenses somos atravessados pelo humor desde pequeno, o Cearense é gaiato desde menino, muitas vezes como forma de resistência, não é à toa que o nosso imortal poeta, Patativa do Assaré, fala
que somos “Da terra querida, que a linda cabocla
De riso na boca zomba no sofrer”
Vejo a gaiatice inerente ao cearense, como um tipo de patrimônio imaterial.
Até hoje é celebrado em Fortaleza um evento chamado “Vaia ao Sol”, relembra o grupo de Cearenses que reunido na praça do Ferreira vaiaram o sol com a famosa vaia cearense, em protesto contra o clima quente em janeiro de 1942. Sem falar nos incontáveis humoristas famosos filhos dessa terra.
Sobre as Mentiras, a de que mais me recordo foi a da senhora que contou que seu avô guardava uma socadeira (um tipo de espingarda) para usar contra as raposas que comiam as galinhas do seu quintal. Quando seu avô morreu, sua avó ficou triste e sem saber como agir diante dos ataques da raposa ao galinheiro, ela lembrou da socadeira do avô e foi ajudar a vó. Ela relata que inusitadamente, quando foi atirar na raposa, saiu da socadeira uma gata parida com 7 gatos que rapidamente lutou com raposa e botou ela pra correr, daí em diante nunca faltou gato na comunidade, herança desse causo. Ela ganhou o segundo lugar levando pra casa o prêmio "Cara de Pau".
Nessa noite, também tive a felicidade de conversar com o Mestre Pádua sobre a importância da preservação dos patrimônios, história e cultura.
Pádua começou a conversa com um verso:
“Tem muita gente que pensa em conhecer outro lugar, ir para os Estados Unidos, Europa passear mas eu penso diferente por que eu sei que essa gente nem conhece seu lugar.
Então conheça, sua história, pois ela é a ciência que estuda o passado para melhor explicar o presente, para mantermos vivo e salvaguardar nossa memória. Né?
Aqueles que fizeram e fazem atualmente, que é o caso aqui na Boa Água, o ponto cultural do Boi Coração e Mestre Chico Emília. Então é isso que a gente tem que fazer, é cuidar da cultura, pois quem estuda, preserva, e nós precisamos de gente que preserva. “
Começa a cantarolar
“Baturité é onde fica minha morada… cidade linda pras bandas do Ceará, cordelizando eu saí pela estrada, por que eu sou mestre da cultura popular…”
“e é essa minha missão, representar minha cidade, representar minha história, Baturité também tem história…
Em Baturité, nós temos os filhos ilustres, mas para maior tristeza é como lhe disse, a falta da preservação, vemos os prédios antigos demolidos para construir prédios modernos, e ninguém faz nada…
Temos em Baturité o casarão dos Macieis, Godofredo Maciel! Já ouviu falar? Uma avenida que passa em frente o DETRAN em Fortaleza, prefeito duas vezes em Fortaleza e governador do Acre em 1910, indicado pelo presidente Hermes da Fonseca, também era irmão de um membro da Academia Cearense de Letras, a academia mais antiga do Brasil, o poeta Júlio Maciel.
Hoje não se falam da história da cidade, também houve o ministro da justiça e do trabalho, Waldemar falcão também Baturiteense…”
Renesson: Luiz Severiano Ribeiro também!
[Luiz Severiano Ribeiro foi um baturiteense e fundador do Grupo
Severiano Ribeiro, uma das grandes empresas de exibidoras cinematográficas do país]
Pádua com ênfase: sim, Luiz Severiano Ribeiro, o pessoal diz “o pai do cinema” o pai não, o Rei do cinema. Pois ele era um empresário do ramo do cinema como até hoje o complexo do Cine São Luiz Ainda no Brasil todo pertence a família de Luiz Severiano Ribeiro.
Renesson: inclusive atualmente em “O Agente Secreto” vimos o cinema São Luiz tendo um papel importante na trama, é o cinema onde é exibido o filme “o tubarão” no qual o protagonista se interessa em assistir porém não possui a faixa etária.
Pádua: essa história que a gente tem que preservar, e lutar por ela.
Ainda conversando com Pádua me surgiu a curiosidade de perguntar das origens do Reisado Boi Coração, pois havia ouvido boatos da relação entre Baturité e Quixadá, quando o assunto é reisado. Pádua me confirmou que realmente o reisado é oriundo da região do Maciço e disse que quem poderia me explicar melhor era o mestre Chico Emília.
Expliquei pro mestre que era de Baturité, minha família é de uma serra chamada Várzea das Palmeiras, que fica próximo de uma comunidade que minha família chama “Putiú dos Dorotel” ano passado, faleceu um grande ícone da cultura Reisado, Emanuel Marcelino Freire, conhecido como seu "Nel Doroteu". Que habitava aquela região. Perguntei ao Mestre e ele me confirmou a Relação entre o Reisado Boi Coração de Boa Água e o reisado de Baturité.
"Nosso Reisado Boi Coração foi fundado por Seu Assis e Seu Citonho, que vieram de Baturité ainda jovens, por volta de 1930. Depois de um tempo parado por dificuldades, o grupo foi retomado em 1993, quando entrei e sigo até hoje. Antes ele acontecia só no ciclo natalino, começava dia 25 de dezembro e terminava dia 6 de janeiro, depois só no outro ano, mas quando fiquei à frente passei a apresentar o ano todo. Mesmo sendo um grupo voluntário e enfrentando dificuldades, seguimos ativos, com jovens e crianças, já fomos reconhecidos como Tesouro Vivo do Ceará e continuamos mantendo viva essa tradição que veio de Baturité".
Nas palavras do mestre: "quando fala no reisado a maioria foi de Baturité, né? Baturité é que nem um celeiro de reisado de caretas, que justamente é o nosso.
Saí do terreiro do Mestre Chico Emília, grato sobretudo por reconhecer a importância da oralidade, visto que tudo que foi chegado até mim foi fruto dela, os versos cantados, as histórias lembradas, os causos que atravessam gerações sem nunca terem sido escritos. Aprendemos na graduação em História a não hierarquizar fontes, a tradição racional moderna impõe uma hierarquização sobre as formas de saber supervalorizando o texto escrito, queria deixar uma reflexão sobre o assunto do xamã e líder Yanomami Davi Kopenawa
“As palavras ianomami não podem ser destruídas pela água e pelo fogo, os ianomamis nao precisam da escrita para alimentar a memoria”