Quando o Patrimônio tem Rosto, Voz e Força Feminina
No dia 06 de março, nas comemorações do dia da mulher (08.03) a 2ª oficina aconteceu em praça pública no Centro de Crato. As pessoas interagiram com retratos de mulheres e suas histórias. A ação foi integrada com o Projeto "leia mulheres negras". Essa ação contribuiu para o entendimento de que: No Cariri cearense, a força feminina marca a história como referência viva na religiosidade, na cultura, na arte e na educação. São mulheres que enfrentaram adversidades profundas: desde normas sociais rígidas, que muitas vezes limitavam seus destinos ao casamento e à maternidade, até o combate ao analfabetismo e à falta de oportunidades de estudo para além do magistério. Entre elas está Dona Violeta Arraes, que deixou o Araripe ainda criança, ganhou o mundo como a “rosa de Paris”. Voltou ao Cariri para contribuir com o fortalecimento da Universidade Regional do Cariri – URCA, em Crato, e da Fundação Casa Grande – Memorial do Homem Kariri, em Nova Olinda, instituição da qual é considerada “madrinha”. Também se destaca Rosiane Lima Verde, responsável por sonhar e construir a Casa Grande, que ultrapassou os limites da região e se tornou um modelo educacional reconhecido internacionalmente. Além disso, a instituição preserva, pesquisa e apresenta a cultura do povo kariri, nossos ancestrais; é museu, escola de comunicação para crianças e jovens do sertão, espaço de turismo, arte e cultura. Sua grandeza é difícil de resumir, pois está em constante reinvenção. Essa ideia de reinvenção também aparece na trajetória de Dona Assunção Gonçalves, artista plástica versátil que, diante da falta de materiais para pintar, criou tintas e uma técnica própria, deu forma ao seu arco-íris. Além disso, sua arte retratou sua terra e sua gente. Ela também atuou como confeiteira, ofício que era pouco acessível no início do século XX. Dona Assunção foi aluna e, depois, professora e secretária da primeira Escola Normal Rural do Brasil, fundada em Juazeiro do Norte, em 1934, no contexto do movimento ruralista, que buscava criar políticas de permanência do homem no campo, diante do avanço da industrialização e da migração para os grandes centros. Essa escola foi dirigida por Dona Amália Xavier, que não apenas a administrou, mas participou de todo o processo de luta por sua fundação. Ela atuou na educação e na política do Cariri cearense e esteve entre as primeiras mulheres formadas como normalistas na capital do Estado. Antes disso, pensando nas mulheres que não tinham condições de estudar em Fortaleza ou em outras cidades onde existia o curso Normal, Madre Ana Couto, aos 38 anos, aceitou o desafio de liderar a criação da Congregação das Filhas de Santa Teresa de Jesus e do Colégio Santa Teresa de Jesus, em Crato, cuja primeira turma de professoras foi formada em 1929. Sob sua liderança, muitas outras instituições educacionais e sociais foram criadas e administradas, ultrapassando os limites do Cariri e do estado do Ceará. Muitas mulheres também realizaram o sonho de seguir a vida religiosa, como Madre Carmelina Feitosa, que se formou no mesmo colégio, consagrou-se Filha de Santa Teresa e, posteriormente, fundou o Colégio Pequeno Príncipe. Na Fundação Padre Ibipiapina, fez ecoar ações educativas e de caridade até a sua morte. Por suas obras e por sua reconhecida atuação no Cariri, recebeu da URCA o título de Doutora Honoris Causa. Destaca-se, ainda, o vigor e a força de Bárbara de Alencar, conhecida como “heroína do Cariri” e considerada a primeira presa política da história do Brasil, por sua luta contra o imperialismo e contra os impostos severos que oprimiam o povo. Com Dona Bárbara, retomamos também um apelo urgente: a união de mulheres e homens no enfrentamento ao feminicídio, uma das maiores dores vividas atualmente no Cariri. Chega de mortes. A professora Silvany nos lembra que é preciso defender a vida e lutar para que cada pessoa tenha acesso à educação, pois, em qualquer classe e em qualquer gênero, pode existir um grande legado esperando para ser despertado. Por fim, há outras mulheres, outras histórias e muitos caminhos ainda por narrar. Esta exposição nos recorda que a memória permanece em construção. Que continuemos a escrevê-la.