Entre caminhos e cordel - por Francisca Oliveira
Entre diálogos e caminhos, chegamos ao primeiro destino: Assentamento Nova Canaã, onde se localiza a escola Irmã Tereza Cristina, de ensino Médio e Profissional do Campo.
Havia um silêncio entre os corredores. O professor Nathan, de forma calma e explicativa, contava da riqueza daquela instituição com esperança na voz ao longo dos nossos passos em direção a biblioteca, onde a cordelteca teve o seu lugar.
O carro fazia o retorno pela mesma estrada de outrora, agora em direção ao próximo destino. No som, uma playlist de Ney Matogrosso que fazia os meus lábios semiabertos cantarem sangue latino.
No sol quente das 11h, um senhor de estatura baixa se locomovia até o portão, articulando uma das mão para tapar a visão do sol. Foi ele quem permitiu nossa entrada no colégio Agrícola Deputado Leorne Belém.
A cordelteca, que cheirava a madeira e esperança, atravessava os portões, deixava olhos curiosos. Professores, coordenação, direção e alunos nos receberam com gestos calorosos. O objeto vinha nas mãos de Silva, um dos idealizadores do projeto.
Uma aluna relatou que, com a cordelteca , o acesso ao cordel e a cultura ficaria mais fácil. Ao ouvir aquelas palavras, me senti feliz. Ali eram alunos tão jovens e já pulsava a alegria e o pertencimento ao patrimônio cultural.
Seguimos estrada até o Sesc de Quixeramobim, espaço de estrutura acolhedora.Durante a entrega, o professor Rodrigo Marques falou sobre a seleção de alunos para as oficinas de escrita de cordel e de gravura que o projeto Cordelteca nas escolas incluía. Um docente do espaço comentou, com animação, a importância de dar seguimento a difusão da tradição popular nordestina. Durante a conversa, eu percebi o quanto aquele lugar também contribuia para essa disseminação.
Na volta para casa, recordei da fala do professor e escritor Bruno Paulino, da unidade Humberto Bezerra, o penúltimo instituto visitado. Ele declarava essa ação como algo seminal, porque formava novos poetas a partir do local da escola que, em suas palavras , seria o lugar onde a literatura de cordel precisa estar.
Entre visitas e conversas jogadas fora, chegamos à instituição Professor Marum Simão. Tive a sensação que o destino fazia aquele dia cheirar a reencontros, vi ex-alunas reencontrando um ex-professor,e isso me fez pensar que a vida nos faz andar a cem e que o tempo segue veloz. Questionei a mim mesma se o futuro iria fazer o mesmo comigo.
Quando a diretora recebeu o acervo e proferiu palavras de gratidão, pensei na esperança que o educador carrega ao levar a literatura para a sala de aula.
Agora, sentada nesta cadeira, penso na literatura de cordel como uma rede de extensão, que nos transporta até o outro através de uma expansiva conexão de saberes. Penso enquanto poeta e com esperança no terreno fértil que Quixeramobim é e seguirá sendo.
Penso que daqui um tempo cada aluno terá colhido o verso que contará aquilo que compõe a própria identidade, levando consigo esse ser nordestino.